Março 2010

 

JOE FERNANDES

Fotografia

 

Joe Fernandes passou uma boa parte da vida a viajar, a explorar países com os quais tem fortes vínculos. como Inglaterra e Portugal, e muitos outros cujas visitas resultaram do acaso, de uma escolha aleatória ou de circunstâncias da vida que o levaram a conhecê-los: Irlanda, França, Bélgica, Itália, Espanha, Noruega, Polónia, Roménia, Bulgária, Chile e índia, entre outros.
A paixão pela fotografia teve início muitos anos antes de começar a estudá-la, na Universidade de Brighton, e as fotografias reunidas neste livro são uma pequena amostra de todo o material que Joe Fernandes foi acumulando ao longo de anos de viagens.
Ouando observamos este conjunto de fotos, deparamo-nos não só com imagens de lugares espalhados pelo planeta, mas também com a peculiar visão, ou visões, de Joe Fernandes sobre lugares e momentos. Apreciar esta recolha de imagens é, assim, percorrer com o artista os quatro cantos do mundo e também visitar os vários mundos que o habitam, já que toda fotografia - o ângulo escolhido, a luz que se permite entrar, a selecção do tema - é uma interpretação interna e pessoal de uma realidade exterior.
Nesta colectânea, salta à vista uma grande quantidade de fotografias a preto e branco e, nelas, a ausência de pessoas e, sobretudo, o silêncio. O silêncio, que em alguns casos é também solidão, percorre o corredor da mina de sal de Wieliczka, na Polónia, as campas dos soldados portugueses desconhecidos, no Cemitério Militar Português da Bélgica, o Palace Pie r de Brighton, em Inglaterra, os rebuçados gigantes que o vento quer levar, abandonados numa varanda de Barcelona, ou o Cristo de madeira com a mão na cara que espera com paciência e resignação, no cemitério de Zakopane, na Polónia.
No pólo contrário, a intensidade vital das fotografias a cores da índia e do Chile que, pelo colorido que apresentam e pelas pessoas que retratam, estão cheias de bulício: a vida fervilha em qualquer recanto, olhar ou sorriso.
Tanto numas como noutras encontramos um elemento comum, transversal, uma linha de orientação que subjaz ao olhar por trás da câmara: a religiosidade, o misticismo, a relação deste mundo, da vida, e talvez do fotógrafo, com a transcendência. Belíssimos exemplos deste tema são as fotografias de uma igreja lisboeta, com um crucifixo em contraluz azul e flores de tons rosados em primeiro plano; ou a de um cemitério de Brighton, em que as campas se encontram rodeadas de estridentes flores amarelas, símbolo inequívoco de vida; a de uma igreja de Sófia, na Bulgária, em que a luz das velas transmite calor e confiança, num espaço de culto quase dominado pela penumbra; e, por último, a da igreja da Nossa Senhora da Boa Viagem, em Goa, com a porta pintada num tom lápis-Iazúli, que deixou de ser o que fora, originariamente, para passar a ser a igreja de Our Lady of Boa Viagem. Os tempos mudam, as línguas e os homens também, mas um sentimento mais profundo permanece.
Se a relação com a transcendência é evidente em boa parte desta obra de Joe Fernandes, não menos visível é a relação com a vida terrena e com a vitalidade deste mundo. Na fotografia da Sé de Lisboa, o elemento que o fotóqrafo privilegiou não foi a fachada monumental, mas sim a dança espontânea e contínua da água que sai de uma pequena fonte. Outra fotografia, de Brighton, oferece-nos uma manta brilhante, formada por gotas de água sobre uma teia de aranha. Outra ainda, tirada na mesma cidade, mostra-nos um grupo de cogumelos, qual conjunto arquitectónico de um mundo mágico que nem sempre sabemos ver.
Por último, mas nem por isso menos importante, as maravilhosas fotografias de Joe Fernandes são um canto à vida, essa vida que nos faz todos distintos, com um caminho próprio, individual - a mão de pedra, com os dedos bem definidos, na ânsia de se separarem de uma parede uniforme. na Normandia -. mas iguais na busca de um objectivo finar. uma meta comum que nos é desconhecida e que determina, tal como nos indica a fotografia de um painel de azulejos de Barcelona, uma necessidade imperativa de LUZ.

..........................................................................................................................................................................................................Paulo Pitta

Joe Fernandes has spent a large part of his life exploring countries for which he has a strong bond like England and Portugal. He has also been inspired by other countries that he has visited by chance, fortuitous choice ar life circumstances.
The passion for photography begun many years before studying at the University of Brighton, and the selection of photographs in this book is a small slice of ali the material that Joe has accumulated ove r the years.
When we observe this body of work we encounter not only images spread throughout the world but of a special vision or visions of the artist amongst places and moments.
To appreciate this collection of images is also like accompanying the artist. Ali photography comprises of the chosen angle, the light that has been permitted to enter, and an internal personal interpretation
of an exterior reality.
ln this compilation, what jumps to our eyesight is a group of photographs in black and white with the absence of people but the presence of silence. Silence, which in some images projects solitude, like in the salt mine shaft of Wieliczka in Poland; the tombstones of First World War soldiers; Palace Pier on a winters day in Brighton; gigantic sweet wrappers that the wind wants to take from the balcony in Barcelona; or the wooden sculpture of Christ with its hand on its face awaiting with patience and resignation in the cemetery of Zakopane in Poland.
At the opposite spectrum, is the intense vitality in the colour photographs of India and Chile. Its definition in hues and by the people it depicts is images full of activity: life vibrates in every corner, looks ar smiles.
There appears to be a common element, transversal. and a line of orientation that subjugates the eye: religion, mysticism, in relation to this world, to life and maybe the photographer's relation with transcendence.
Prime examples of this theme are the photographs taken in a Lisbon cemetery with the crucifixion on a blue background and blurred shades of pink on the foreground; or one taken in a cemetery in Brighton in that the tombstones are surrounded in striking yellow dandelions, unequivocal symbol of life; another inside a church in Sofia Bulgaria in which the candle lights transmit warmth and confidence in a serene space almost dominated by penumbra; and, lastly the church of Our Lady of Good Journey in Goa half translated into English with its deep blue lapis lazuli doorway.
Times change, languages and people change too, but a lasting sentiment prevails. If the relation of transcendence is evident in a large part of Joe's work, equally visible is the earthy relationship and vitality of this world. ln the photograph of the Cathedral Sé in Lisbon, the photographer has not highlighted the monumental façade but instead, the dancing and spontaneous water spout coming from its small fountain. ln another photograph, of Brighton, we are offered a sparkling quilt formed of dew on a spider's web. Another from the same town shows a group of mushrooms in an almost architectural formation of a magicai world we don't always see.
Lastly, the marvellous images embodied here are songs of life, life which has made each of us different from one another with one's own personal journey. The example of the granite splayed hand from Normandy in France, with the will to separate itself from the uniformed wall but also in search of a final objective, a common aim that we don't know but determines us like the picture of a tiled mosaic from Barcelona, an imperative necessity: LlGHT.

..........................................................................................................................................................................................................Paulo Pitta

 

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