MAIO 2011

Inaugura Sábado, dia 14, às 18h00, patente até 30 de Junho

JOHN HOWARD WOLF

Fotografia

“NIRVANA DE CARTEIRO” /
“A MAILMAN’S NIRVANA”

 

John Howard Wolf
Norte-americano, reside em Portugal desde 1977. Obteve a dupla nacionalidade. Doutoramento em Línguas Românicas & Literatura pela Universidade de Pittsburgh, E.UA especializando-se em vertentes do Iluminismo Francês em Espanha. Professor Universitário nos E.UA, Apoiado pela Fundação Mellon na fase de estudos pré-doutoral; Director de Programas Internacionais de Intercâmbio.
Fundador e Director de uma cooperativa de ensino e centro cultural em Portugal, com programas de música de câmara, teatro e exposições. Investigador na área do Cooperativismo e Desenvolvimento Comunitário, com publicações no Reino Unido, França, Espanha, Polónia, Hungria e Japão.

A fotografia sempre acompanhou a sua vida profissional; em 1955 ganha um concurso de fotografia regional nos E.UA. As suas fotografias de actores, músicos de jazz, ou modelos foram publicadas em livros ou utilizadas como capa de diversas obras. Em 2005 obtém uma menção honrosa no concurso fotográfico do BES. Fez parte de exposições na Galeria Braço de Prata e do Centro Cultural de Cascais. A sua série fotográfica . Nirvana de carteiro', sobre o Livro do desassossego, foi exibida na Casa Fernando Pessoa. É um dos associados do movimento de fotografia SheMouse Photo.

 

FERNANDO PESSOA  HOJE

“NIRVANA DE CARTEIRO”

Ensaio Fotográfico
O Livro do Desassossego

 

FERNANDO PESSOA TODAY

“A MAILMAN’S NIRVANA”

Photographic Essay
The Book of Disquiet

Pessoa talvez seja o escritor português mais conhecido dentro e fora do país, da categoria de Kafka, ambos com a coragem, e temeridade para concretamente documentarem por escrito os seus pensamentos, preocupações, e confusões mais íntimas. Pessoa não era um freak, esotérico nem esquisito, como frequentemente é pintado, mas, pelo contrário, um pensador e sonhador extremamente sensível e solitário, como são muitas pessoas . O seu Livro do Desassossego é um testemunho singular da sua experiência e estado de consciência.
Este livro gira a volta do bairro e da rua onde ele vivia e trabalhava, a Rua dos Douradores, no centro de Lisboa conhecido como a Baixa. Ele chamava esta rua uma “nirvana de carteiro” que explicarei mais em frente.
Desassossego nunca foi um livro como tal durante a sua vida, mas antes uma grande colecção de fragmentos da sua escrita, encontrados numa mala. Investigador trás investigador tem procurado ordená-los conforme critérios vários que, em todo o caso, serão tentativas bastante arbitrárias. Portanto, ao final das contas, ficamos mais com uma ideia cumulativa geral e não com uma sequência bem definida com um princípio, médio e fim. As minhas fotografias são também arbitrárias com efeito cumulativo no mesmo sentido.
Eu quero, dentro das possibilidades aqui, desmistificar um pouco a imagem de Pessoa projectada pelos académicos e intelectuais, uma imagem exagerada, caricaturada, orientada por um alto grau de teoria e erudição seca, e moda “chic”. Procuro devolvê-lo ao seu mundo quotidiano vivido, e às suas influências, a esse bairro da cidade e à sua gente, agora nas suas caras e roupagens modernas, e não como um artefacto do passado, e assim de este jeito procurar explicar porque ele reagia como fez, combinando a minha perspectiva de professor universitário de literatura com aquela de fotógrafo.
 A fotografia e a observação figuravam muito na sua mente. Até pergunta no livro, “que certeza é esta que uma lente fria documenta”? Parece que quer que vejamos mais além ou detrás da imagem superficial, e a não depender exclusivamente das aparências. Um crítico literário chama Desassossego “uma estranhíssima fotografia, feita com palavras”. E o próprio Pessoa disse, várias vezes, que ele é algo assim como uma placa fotográfica, impressionável.
Um dos críticos portugueses mais importantes e penetrantes chama a nossa atenção à “náusea” que era a realidade da Lisboa daquele tempo histórico.
Uma das grandes perplexidades, até enigma, de Pessoa era a sua ambivalência para com o homem ordinário, da rua, que aparece nas minhas fotografias. Ao querer ser solidário com eles, encontrava-os repugnantes. “O povo é bom tipo” dizia, a seguir-se de “o povo nunca é humanitário”. Quem captou brilhantemente esta ambivalência é o José Augusto Seabra que fala do “intrinsecamente contraditório discurso pessoano”, e da coincidentia oppositorum.  
As minhas fotografias estão legendadas com trechos do texto de Desassossego, mas a minha intenção não é das acompanhar com descrições programáticas e inflexíveis, mas antes de capturar a mentalidade de Pessoa enquanto observava e depois escrevia, e assim fornecer ao novo e antigo leitor de Pessoa novas vias ao seu espírito, através de uma perspectiva diferente e concreta.
E finalmente, o que queria dizer Pessoa com a expressão, “nirvana de carteiro”? A maioria das tentativas de esclarecimento são imaginativas até serem pouco úteis. Nirvana no seu tempo simplesmente significava um estado de oblívio aos cuidados, sofrimento, dor, à realidade externa, e mais importante ainda, à consciência.
A sua angústia e sofrimento eram de tal maneira dominantes que ele desejava alcançar um estado de inconsciência, e Pessoa até invejava aos que eram assim. Disse que “a inconsciência é o fundamento da vida”. A vida dos carteiros é rotineira, a sempre distribuir cartas nas mesmas rotas, Pessoa imaginava-se, e por isso um escape do tipo de sofrimento que ele experiementava.
Espero bem que os leitores e observadores de este livro e fotografias consigam ver além das imagens, e observem como o próprio Pessoa observava, e assim consigam ter uma mais profunda compreensão do homem e a sua obra.

                                                 ©John Howard Wolf 2005

Pessoa is perhaps Portugal’s best-known writer, at home and abroad, comparable only to Kafka, both of whom had the courage, or foolhardiness, to actually record in writing their innermost thoughts, worries, and confusions. Pessoa was not a freak, esoteric, nor weird, as he has been made out to be, but rather a terribly sensitive, lonely thinker and dreamer, like many of us. His Book of Disquiet is a unique testimony to this experience and state of mind.
This book revolves around the quarter and street where he lived and worked, the Rua dos Douradores, in the downtown quarter of Lisbon known as the Baixa. He called this street “a mailman’s nirvana” for reasons that I will explain.
Disquiet was never a book during his lifetime, but rather a large collection of scraps of paper with his writing, found in a trunk. One scholar after another has attempted to “order” them according to different criteria which, in any case, will always be rather arbitrary. So we are left with a cumulative effect and not a clearly defined sequence, with a beginning, middle, and end. My photographs and their order could also be called arbitrary and cumulative in that sense.
One of my intentions has been to demystify him, to correct the image of him that has been projected by academics and intellectuals, often with a high degree of exaggeration, theory, dry erudition, and modishness I restore him to the world he lived in, and to the influences that worked on him, a quarter of the city and the people who inhabited it, in my treatment in their modern forms and faces, and not as an historic artefact, hoping by doing this to help explain why he may have reacted in the way he did. I do this coming from my experience as a university professor of literature turned photographer.
The visual and photography were very much in his mind at the time. He questions, “what certainly is this that a cold lens documents”?  He seems to be wanting us to see beyond or behind the simple superficial image, not relying exclusively on appearances in our lives. One critic goes as far as to call Disquiet “a very strange photograph, composed of words”. And Pessoa says, more than once, that he himself is a kind of photographic film who is very impressionable.
One of the most important and penetrating of Portuguese literary critics of Pessoa calls our attention to what he describes as the social “nausea” which deeply characterizes him faced as he was with “the Portuguese reality of his times”, which I have attempted to capture in current images.
One of Pessoa’s great quandaries, even his enigma, was his ambivalence towards the common man, the man-in-the street, those types that appear in my photographs. While wishing to be at one with them, he was, at the same time, repulsed. “They are good guys”, he would say, to be followed with “these guys have no humanity”. Who expertly documented this ambivalence was José Augusto Seabra when he speaks of the “intrinsically contradictory pessoan discourse” and of his coincidentia oppositorum.
I have accompanied my photographs with captions from the text, and while they are not meant to be exact or programmatic descriptions of the pictures, they do capture what I feel to be was in Pessoa”s mind while he was writing, thereby giving the old and the new readers of Pessoa another way in to his spirit, and a new, more concrete perspective.
Finally, what did he mean by a “mailman”s nirvana”? There have been many attempts to explain this expression, but most have been fanciful. Nirvana in his time simply meant a place or a state of oblivion to care, pain, and external reality, and also to consciousness.
His suffering and anguish were such that he seemed to desire to achieve a kind of unconsciousness, and he was almost envious of those who could achieve this state. On one occasion he said that “unconsciousness is the essence of life”. In the routine life of a mailman, who always follows the same route, and always delivers letters to the same addresses, perhaps he envisioned an escape from the type of suffering he experienced. 
I am hoping that the readers and viewers of this book will also see beyond the images to what is not actually seen with the naked eye, to see and observe like Pessoa and gain a deeper understanding of him and his writing.

                                                ©John Howard Wolf 2005

 

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