Setembro 2007

 

MÁRIO BRANCO

Pintura

Contradições---Contra Dicções---Com Tradições

MÁRIO BRANCO (Barreiro, 1957)


Dedica-se em exclusivo à pintura desde 1994

Exposições Individuais:
     1995 Galeria de Arte Faul, Lisboa
     1996 Galeria Forúm, Barreiro
     1998 Galeria de S.Bento, Lisboa
     1999 Galeria Raquel Prates, Cascais
     2003 Instituto Camões, Lisboa

Edição de Serigrafia pelo CPS (1998)


Participação na Bienal de Paris “GRANDS ET JEUNES D' AUJOURD' HUI, 1998” (Selecção do Júri)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há sempre, quando se discorre acerca de um assunto como a arte, duas abordagens possíveis: ou se adopta o que é, lamentavelmente, o mais frequente, um estilo discursivo vago e incaracterístico que, não raras vezes, se revela mais preocupado com o estilo literário da prosa do que, como deveria ser, com as particularidades da obra sobre a qual se disserta ou, pelo contrário, empreende-se um esforço sério no sentido de, antes do mais, tentar determinar qual a natureza do objecto sobre o qual incidirá, posteriormente, o esforço teorético e verificar se, eventualmente, o instrumento de análise de que dispomos se revela ou não, conforme à natureza do objecto a analisar. Não o fazer produziria o mesmo resultado que, querendo descascar uma laranja, o fizéssemos com uma colher.
   Feita esta clarificação de âmbito metodológico cumpre esclarecer que, a meu ver, não existe conformidade ou adequação entre este específico objecto (a pintura) e o instrumento de expressão analítica (a linguagem).
   Considerem-se, com efeito, todas as dissertações estético – filosóficas empreendidas; todas as definições gerais e abstractas produzidas acerca da arte ou, até, uma elencagem exaustiva das simples opiniões expressas acerca do assunto e chegar-se-á, na minha opinião, sempre á mesma conclusão: restará sempre um surplus que escapa ás definições.
   De facto, quer pelo argumento atrás referido quer, também, pelo facto de entender a arte como uma metalinguagem nunca me pareceu possível ou, sequer, desejável confiná-la aos limites de uma qualquer definição razão pela qual, não tecerei qualquer consideração acerca das obras tidas de per si.

DA CONCEPÇÃO PALIMPSÉSTICA

   Conceito com origem numa prática usual na Índia que consistia, em razão da escassez de recursos, na reutilização do suporte escrito após a aplicação de uma goma-laca.
   Devido às sucessivas reutilizações estes suportes foram, com o decorrer do tempo, revelando algumas particularidades como, por exemplo, a constatação de que, a cada recobertura sobrevinham, invariavelmente, alguns vestígios da escrita anterior. Tal facto, aliado á desconexão verificada entre os assuntos objecto de escrita propiciou, gradualmente, a emergência de uma escrita repleta de novas e surpreendentes significações.

DA TRANSPOSIÇÃO DO CONCEITO PALIMPSÉSTICO PARA A PINTURA

  
A transposição deste conceito para o âmbito da pintura tem, naturalmente, três consequências distintas:

    - Permite, pela coexistência de signos provenientes de intervenções distintas, um novo simbolismo dos mesmos por via da recontextualização.

   - Permite, pela morosidade do processo criativo, que as obras contenham o tempo como uma das dimensões estruturantes do processo.

   - Permite, na minha opinião, a adequação entre, por um lado, a natureza deste específico processo de criação e, por outro, a natureza da nossa própria humana existência.

   Uma obra de arte pode fornecer, em certos casos, aquilo que usualmente designo por código genético da alma, quer do seu autor quer, também, do seu  casual fruidor.
   É, justamente, esse código que confere á obra a sua impressão psicológica sendo aí que, a meu ver, se deve procurar a coerência da obra. Com efeito, tal desiderato é da ordem interna do conteúdo e não, como muitas vezes se assiste, da ordem externa da forma.
 
    Procuro, através da obra, propiciar um encontro com o observador, quer para além da penumbra do inconsciente quer, também, da hipotética clareza do intelecto.
   Com efeito, tanto a ausência como o excesso de luz me pareceram, sempre, óptimos caminhos para a cegueira.

    Com o meu trabalho busco partilhar algo seminal: um momento de esquecimento traduzido na possibilidade de, pela emoção estética, se dispor de uma espécie de suspensão temporal, isto é, a oportunidade de recobrar o fôlego.

Mário Branco

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